REPÚBLICA DE CABO VERDE: CÓDIGO CIVIL

Direitos e encargos dos condóminos

 

Artigo 1403º

 (Direitos dos condóminos)

 

1. Cada condómino é proprietário exclusivo da fracção que lhe pertence e comproprietário das partes comuns do edifício.

2. O conjunto dos dois direitos é incindível; nenhum deles pode ser alienado separadamente, nem é lícito renunciar à parte comum como meio de o condómino se desonerar das despesas necessárias à sua conservação ou fruição.

 

Artigo 1404º

(Partes comuns do prédio)

 

1. São comuns as seguintes partes do edifício:

a    O solo, bem como os alicerces, colunas, pilares, paredes mestras e todas as partes restantes que constituem a estrutura do prédio;

b   O telhado ou os terraços de cobertura, ainda que destinados ao uso do último pavimento;

c    As entradas, vestíbulos, escadas e corredores de uso ou passagem comum a dois ou mais condóminos;

d   As instalações gerais de água, electricidade, aquecimento, ar condicionado e semelhantes.

 2. Presumem-se ainda comuns:

a    Os pátios e jardins anexos ao edifício;

b   Os ascensores;

c    As dependências destinadas ao uso e habitação do porteiro;

d   As garagens;

e    Em geral, as coisas que não sejam afectadas ao uso exclusivo de um dos condóminos.

 

Artigo 1405º

 (Limitações ao exercício dos direitos)

 1. Os condóminos, nas relações entre si, estão sujeitos, de um modo geral, quanto às fracções que exclusivamente lhes pertencem e quanto às partes comuns, às limitações impostas aos proprietários e aos comproprietários de coisas imóveis.

 2. É especialmente vedado aos codóminos:

a    Prejudicar, quer com obras novas, quer por falta de reparação, a segurança, a linha arquitectónica ou o arranjo estético do edifício;

b   Destinar a sua fracção a usos ofensivos dos bons costumes;

c    Dar-lhe uso diverso do fim a que é destinada;

d   Praticar quaisquer actos ou actividades que tenham sido proibidos no título constitutivo ou, posteriormente, por acordo de todos os condóminos.

 

Artigo 1406º

 (Direitos de preferência e de divisão)

 Os condóminos não gozam do direito de preferência na alienação de fracções nem do direito de pedir a divisão das partes comuns.

 

Artigo 1407º

 (Encargos de conservação e fruição)

 

1. Salvo disposição em contrário, as despesas necessárias à conservação e fruição das partes comuns do edifício e ao pagamento de serviços de interesse comum são pagas pelos condóminos em proporção do valor das suas fracções.

 2. Porém, as despesas relativas aos diversos lanços de escadas ou às partes comuns do prédio que sirvam exclusivamente algum dos condóminos ficam a cargo dos que delas se servem.

 3. Nas despesas dos ascensores só participam os condóminos cujas fracções por eles possam ser servidas.

 

Artigo 1408º

 (Inovações)

 

1. As obras que constituam inovações dependem da aprovação da maioria dos condóminos, devendo essa maioria representar dois terços do valor do prédio.

2. Nas partes comuns do edifício não são permitidas inovações capazes de prejudicar a utilização, por parte de algum dos condóminos, tanto das coisas próprias como das comuns.

 

Artigo 1409º

 (Encargos com as inovações)

 

1. As despesas com as inovações ficam a cargo dos condóminos nos termos fixados pelo artigo 1407º.

 2. Os condóminos que não tenham aprovado a inovação só podem, no entanto, ser compelidos a concorrer para as respectivas despesas se a sua recusa for judicalmente havida como infundada.

 3. Considera-se sempre fundada a recusa, quando as obras tenham natureza voluptuária ou não sejam proporcionadas à importância do edifício.

4. O condómino cuja recusa seja havida como fundada pode a todo o tempo participar nas vantagens da inovação, mediante o pagamento da quota correspondente às despesas de execução e manutenção da obra.

 

Artigo 1410º

(Reparações indispensáveis e urgentes)

 

 As reparações indispensáveis e urgentes nas partes comuns do edifício podem ser levadas a efeito, na falta ou impedimento do administrador, por iniciativa de qualquer condómino.

 

Artigo 1411º

 (Destruição do edifício)

 

 1. No caso de destruição do edifício ou de uma parte que represente, pelo menos, três quartos do seu valor, qualquer dos condóminos tem o direito de exigir a venda do terreno e dos materiais, pela forma que a assembleia vier a desiguar.

2. Se a destruição atingir uma parte menor, pode a assembleia deliberar, pela maioria do número dos condóminos e do capital investido no edifício, a reconstrução deste.

 3. Os condóminos que não queiram participar nas despesas da reconstrução podem ser obrigados a alienar os seus direitos a outros condóminos, segundo o valor entre eles acordado ou fixado judicialmente.

 4. É permitido ao alienante escolher o condómino ou condóminos a quem a transmissão deve ser feita.

 

Artigo 1412º

 (Seguro obrigatório)

 

 1. É obrigatório o seguro do edifício contra o risco de incêndio.

 2. Qualquer dos condóminos pode efectuar o seguro quando o administrador o não tenha feito, ficando com o direito de reaver de cada um dos outros a parte que lhe couber no prémio.

 

SECÇÃO IV

 Administração das partes comuns do edifício

 

Artigo 1413º

 (Órgãos administrativos)

 

 1. A administração das partes comuns do edifício compete à assembleia dos condóminos e a um administrador.

 2. Cada condómino tem na assembleia tantos votos quantas as unidades inteiras que couberem na percentagem ou permilagem a que o artigo 1401º se refere.

 

Artigo 1414º

 (Assembleia dos condóminos)

 

 1. A assembleia reúne-se na primeira quinzena de Janeiro, mediante convocação do administrador, para discussão e aprovação das contas respeitantes ao último ano e aprovação do orçamento das despesas a efectuar durante o ano.

 2. A assembleia também reunirá quando for convocada pelo administrador, ou por condóminos que representem, pelo menos, vinte e cinco por cento do capital investido.

 3. Os condóminos podem fazer-se representar por procurador.

 

Artigo 1415º

 

(Convocação e funcionamento da assembleia)

 

 1. A assembleia é convocada por meio de carta registada com aviso de recepção, enviada com dez dias de antecedência, na qual se indicará o dia, hora e local da reunião.

2. As deliberações são tomadas, salvo disposição especial, por maioria dos votos representativos do capital investido.

 3. Se não comparecer o número de condóminos suficiente para se obter vencimento, é convocada nova reunião dentro dos dez dias imediatos, podendo neste caso proprietários presentes, desde que estes representem, pelo menos, um terço do capital.

 

Artigo 1416º

 

(Impugnação das deliberações)

 

 1. As deliberações da assembleia contrárias à lei ou a regulamentos anteriormente aprovados são anuláveis a requerimento de qualquer condómino que as não tenha aprovado.

 2. O direito de propor a acção caduca, quanto aos condóminos presentes, no prazo de vinte dias a contar da deliberação e, quanto aos proprietários ausentes, no mesmo prazo a contar da comunicação da deliberação.

 3. Pode também ser requerida a suspensão das deliberações nos termos da lei de processo.

 4. A representação judiciária dos condóminos contra quem são propostas as acções compete ao administrador ou à pessoa que a assembleia desiguar para esse efeito.

 

Artigo 1417º

(Compromisso arbitral)

 

 1. A assembleia pode estabelecer a obrigatoriedade da celebração de compromissos arbitrais para a resolução de litígios entre condóminos, ou entre condóminos e o administrador, e fixar penas pecuniárias para a inobservância das disposições deste código, das deliberações da assembleia ou das decisões do administrador.

 2. O montante das penas aplicáveis em cada ano nunca excederá a quarta parte do rendimento colectável anual da fracção do infractor.

 

Artigo 1418º

 (Administrador)

  1. O administrador é eleito e exonerado pela assembleia.

 2. Se a assembleia não eleger administrador, será este nomeado pelo tribunal a requerimento de qualquer dos condóminos.

3. O administrador pode ser exonerado pelo tribunal, a requerimento de qualquer condómino, quando se mostre que praticou irregularidades ou agiu com negligência no exercício das suas funções.

 4. O cargo de administrador é remunerável, e tanto pode ser desempenhado por um dos condóminos como por terceiro; o período de funções é de dois anos, renováveis.

 

Artigo 1419º

 (Funções do administrador)

 São funções do administrador, além de outras que lhe sejam atribuidas pela assembleia:

a    Convocar a assembleia dos condóminos;

b   Elaborar o orçamento das receitas e despesas relativas a cada ano;

c    Efectuar e manter o seguro do edifício contra o risco de incêndio;

d   Cobrar as receitas e efectuar as despesas comuns;

e    Exigir dos condóminos a sua quota-parte nas despesas aprovadas;

f    Realizar os actos conservatórios dos direitos relativos aos bens comuns;

g    Regular o uso das coisas comuns e a prestação dos serviços de interesse comum;

h   Executar as deliberações da assembleia;

i    Representar o conjunto dos condóminos perante as autoridades administrativas.

 

Artigo 1420º

 (Legitimidade do administrador)

 

 1. O administrador tem legitimidade para agir em juízo, quer contra qualquer dos condóminos, quer contra terceiro, na execução das funções que lhe pertencem ou quando autorizado pela assembleia.

 2. O administrador pode também ser demandado nas acções respeitantes às partes comuns do edifício.

 3. Exceptuam-se as acções relativas a questões de propriedade ou posse dos bens comuns, salvo se a assembleia atribuir para o efeito poderes especiais ao administrador.

 

Artigo 1421º

 (Recurso dos actos do administrador)

 Dos actos do administrador cabe recurso para a assembleia, a qual pode neste caso ser convocada pelo condómino recorrente